Espaço para comunicar erros nesta postagem
Há pessoas que passam pela televisão.
E há pessoas que se confundem com ela.
Silvio Santos foi uma dessas raras figuras.
Durante mais de seis décadas, sua voz, seu sorriso, seu microfone e seu inconfundível “Quem quer dinheiro?” fizeram parte da memória afetiva de gerações de brasileiros.
Neste 17 de agosto de 2026, o Brasil completa dois anos sem Senor Abravanel, o homem que o país aprendeu a chamar simplesmente de Silvio Santos.
Ele morreu aos 93 anos, em São Paulo, vítima de broncopneumonia após uma infecção por influenza H1N1. Mas, embora seu coração tenha parado, aquilo que construiu continua aceso: o SBT, seus programas, seus bordões, suas histórias e, principalmente, a lembrança de um comunicador que fez do entretenimento uma arte.
E talvez seja por isso que falar de Silvio Santos seja tão diferente de falar de qualquer outro apresentador.
Porque, para milhões de brasileiros, ele não era apenas alguém que aparecia na televisão. Ele fazia parte da família.
O menino Senor Abravanel
Antes do terno impecável, do microfone prateado e dos auditórios lotados, existia um menino chamado Senor Abravanel.
Ele nasceu em 12 de dezembro de 1930, na Lapa, região central do Rio de Janeiro. Era filho de Alberto e Rebeca Abravanel e cresceu em uma família de origem judaica sefardita.
Desde muito jovem, Senor aprendeu que a vida exigia trabalho.
Na adolescência, começou a vender produtos pelas ruas do Rio de Janeiro. Foi ali, no contato direto com as pessoas, que começou a desenvolver uma das características que mais tarde o transformaria em fenômeno nacional: a capacidade de conversar com qualquer pessoa.
Ele observava.
Escutava.
Negociava.
E aprendia.
Cada venda era uma aula de comunicação.
Cada cliente, uma experiência.
Cada rua, um palco.
A voz que encontrou o rádio
Em 1948, o jovem Senor participou de um concurso para novos locutores da Rádio Guanabara.
Venceu.
Aquele momento mudaria sua vida.
O rádio revelou uma voz que posteriormente se tornaria uma das mais conhecidas do Brasil. Ele passou por emissoras cariocas e, pouco depois, seguiu para São Paulo, onde sua carreira começaria a ganhar uma dimensão muito maior.
Foi também nessa época que o nome artístico Silvio Santos ganhou força.
O menino da Lapa começava a deixar de ser apenas Senor Abravanel.
Nascia o personagem que o Brasil inteiro conheceria.
O Baú da Felicidade e o nascimento do empresário
Silvio Santos não foi apenas um apresentador.
Essa talvez seja uma das partes mais importantes de sua história.
Ele enxergava oportunidades.
Em 1958, aproximou-se do Baú da Felicidade, negócio ligado ao radialista Manoel de Nóbrega. O empreendimento enfrentava dificuldades, mas Silvio percebeu ali uma possibilidade de crescimento.
A estratégia deu resultado.
O Baú se transformou em uma das bases do futuro Grupo Silvio Santos e ajudou a aproximar ainda mais o empresário do público.
Silvio descobriu algo poderoso:
o negócio podia financiar o espetáculo, e o espetáculo podia impulsionar o negócio.
Essa união entre comunicação e empreendedorismo acompanharia toda a sua vida.
Quando Silvio Santos entrou na televisão
Em 1960, veio o primeiro grande passo na televisão com “Vamos Brincar de Forca”, atração criada para promover o Baú da Felicidade.
Três anos depois, em 2 de junho de 1963, estreava o Programa Silvio Santos.
Era o começo de uma das mais longas histórias da televisão mundial.
O programa cresceu.
Os quadros se multiplicaram.
Os prêmios aumentaram.
E Silvio descobriu uma fórmula que parecia simples, mas exigia enorme talento: colocar pessoas comuns no centro do espetáculo.
Calouros.
Famílias.
Crianças.
Donas de casa.
Artistas.
Anônimos.
Todos tinham espaço.
O homem que transformou o domingo
Durante décadas, o domingo brasileiro ganhou um significado especial.
Era dia de reunir a família.
Era dia de almoço.
Era dia de futebol.
E era dia de Silvio Santos.
O apresentador construiu uma televisão popular, direta e espontânea.
Vieram programas e quadros que entraram para a memória nacional, como Show de Calouros, Domingo no Parque, Qual é a Música?, Porta da Esperança, Em Nome do Amor, Show do Milhão, Roda a Roda e tantos outros.
A própria trajetória oficial do SBT destaca a capacidade de Silvio de renovar formatos e criar atrações que atravessaram gerações.
Ele podia conversar com uma criança em um minuto e, no seguinte, entrevistar uma grande celebridade.
Podia entregar um prêmio.
Fazer uma brincadeira.
Improvisar.
Errar.
Rir do próprio erro.
E continuar.
Essa naturalidade era parte do segredo.
O nascimento do SBT
Mas Silvio Santos queria mais.
Ele queria ter sua própria televisão.
Em 1976, colocou no ar a TVS, embrião da futura rede.
Cinco anos depois, em 19 de agosto de 1981, nasceu oficialmente o Sistema Brasileiro de Televisão — SBT.
Naquele momento, Silvio deixava de ser apenas o apresentador de um programa.
Passava a ser dono de uma emissora.
Um empresário de comunicação.
Um construtor de televisão.
O SBT cresceu com uma proposta popular, próxima do público e marcada pelo entretenimento.
A emissora passou a disputar espaço com os grandes grupos de comunicação do país.
E Silvio Santos estava no centro de tudo.
Um império construído com trabalho
Por trás do apresentador existia um empresário.
O Grupo Silvio Santos cresceu para além da televisão.
Baú da Felicidade, Tele Sena, Jequiti e outros negócios fizeram parte do conglomerado construído por ele.
Em 2013, Silvio Santos chegou a ser apontado pela Forbes como a primeira celebridade bilionária brasileira.
Mas talvez o maior patrimônio de Silvio não estivesse nos números.
Estava na capacidade de transformar ideias em marcas.
E marcas em memória.
Silvio Santos e o palco
Havia algo diferente quando Silvio entrava no palco.
Ele não precisava de grandes discursos.
Bastava o sorriso.
O microfone.
O auditório.
E a frase:
“Ma-oeeee!”
O público respondia.
As crianças sorriam.
Os adultos se divertiam.
E milhões de brasileiros, diante da televisão, sentiam que estavam participando daquele espetáculo.
Silvio dominava o improviso.
Dominava o tempo.
Dominava o silêncio.
Dominava a reação da plateia.
E talvez tenha sido justamente essa capacidade de conversar de igual para igual com o público que o tornou tão grande.
A televisão também sentiu sua ausência
Nos últimos anos, Silvio foi diminuindo sua presença diante das câmeras.
Sua última gravação como apresentador ocorreu em setembro de 2022, embora o material tenha sido exibido posteriormente.
Ele nunca fez um anúncio formal de aposentadoria, mas passou a acompanhar os negócios e a televisão cada vez mais distante dos estúdios.
A televisão, então, começou a aprender uma palavra que parecia impossível:
saudade.
17 de agosto de 2024
Na madrugada de 17 de agosto de 2024, o Brasil perdeu Silvio Santos.
A notícia atravessou o país.
Nas redes sociais, na televisão, no rádio, nos jornais e nas conversas entre familiares, uma pergunta parecia estar no ar:
Como será a televisão sem Silvio Santos?
Ele tinha 93 anos.
Sua morte ocorreu em decorrência de broncopneumonia após infecção por influenza H1N1.
O Brasil chorou.
E, ao mesmo tempo, começou a lembrar.
Lembrou dos domingos.
Dos aviõezinhos de dinheiro.
Da Porta da Esperança.
Do Show de Calouros.
Do Qual é a Música?
Dos jurados.
Das pegadinhas.
Do Baú.
Da Tele Sena.
Dos bordões.
Do sorriso.
Do homem que parecia estar sempre ali.
Um adeus reservado
Silvio Santos foi sepultado em 18 de agosto de 2024, no Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo.
O sepultamento foi reservado à família e aos amigos, respeitando um desejo do próprio apresentador.
Foi um adeus silencioso para um homem que passou a vida inteira diante das câmeras.
Talvez tenha sido a última grande surpresa de Silvio Santos:
o homem que viveu diante de milhões escolheu partir em silêncio.
Dois anos depois, a voz continua
Hoje, dois anos depois de sua morte, basta ouvir uma antiga gravação para que a memória volte.
É quase instantâneo.
A voz.
A risada.
O microfone.
O auditório.
As músicas.
As pessoas gritando.
E aquele sorriso que parecia dizer:
“A festa ainda não acabou.”
Porque não acabou.
Silvio Santos continua nas reprises.
Continua nos arquivos.
Continua nos bordões.
Continua nas histórias contadas pelos filhos, netos e profissionais que trabalharam com ele.
Continua no SBT.
Continua na memória de quem cresceu assistindo televisão.
Continua na lembrança de quem ganhou um prêmio.
De quem sonhou com a Porta da Esperança.
De quem brincou de imitar sua voz.
De quem esperava o domingo para vê-lo.
O maior legado
Talvez seja impossível medir o legado de Silvio Santos apenas pelo tamanho do SBT ou pelo valor de suas empresas.
Seu maior legado foi outro.
Ele mostrou que um garoto vendedor nas ruas poderia chegar ao topo da televisão brasileira.
Mostrou que comunicação também é escutar.
Que entretenimento também pode criar vínculos.
Que uma televisão popular pode atravessar gerações.
E que um apresentador pode se transformar em parte da história de um país.
Silvio Santos não foi apenas um comunicador.
Foi uma era.
Silvio Santos não morreu na memória do Brasil
Do nascimento na Lapa ao estrelato.
Do camelô ao empresário.
Do rádio à televisão.
Do Baú ao SBT.
Dos pequenos palcos aos maiores auditórios.
Dos primeiros programas aos domingos que se tornaram tradição.
Foram mais de nove décadas de vida e mais de sete décadas de trabalho.
Uma história construída diante das câmeras, mas também muito além delas.
Hoje, o Brasil sente falta daquele homem de terno, microfone na mão e sorriso largo.
Sente falta do improviso.
Da brincadeira.
Do “Ma-oeeee!”.
Do “Quem quer dinheiro?”.
Do “Silvio Santos vem aí”.
E talvez a maior prova de que Silvio Santos venceu o tempo seja justamente esta:
dois anos depois de sua morte, ainda falamos dele no presente.
Porque algumas pessoas partem.
Algumas histórias terminam.
Mas existem personagens que se tornam eternos.
Silvio Santos é um deles.
Obrigado, Silvio.
Por cada domingo.
Por cada sorriso.
Por cada sonho.
Por cada história.
Por cada brasileiro que você fez acreditar que, por alguns minutos, a televisão também podia ser sua casa.
Saudade não tem idade.
E o Brasil ainda sente a sua.
Silvio Santos — 1930–2024.
Eternamente, o Rei da Televisão Brasileira.
Publicado por:
Max William
Radialista por profissão e Jornalista em formação pela Unifatece, comecei a trabalhar na TV em 2010, quando fui contratado pela RITTV para ser Editor de Imagem, até ser promovido a Diretor de Imagem, fazendo parte da produção, gravação, edição e...
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